';
side-area-logo
Santa Maria do Bispo em obras (1524-34)


Figura 1 – O portal manuelino da Igreja de Santa Maria do Bispo na atualidade.

Situada na zona oeste do Castelo de Montemor-o-Novo, a Igreja de Santa Maria do Bispo ter-se-á ali estabelecido no princípio do século XIV. A primeira referência documental confirmada que a refere é de 1321, precisamente no rol das igrejas encomendado por D. Dinis, quando a vila de Montemor-o-Novo ainda se situava, na sua maioria, dentro do perímetro amuralhado. Outrora um imponente edifício de três naves e catorze colunas, da Igreja de Santa Maria do Bispo restam hoje apenas as ruínas do seu majestoso portal manuelino e das capelas da sua cabeceira.

Em 1524, mais de dois séculos depois da conclusão dos trabalhos iniciais de construção arquitectónica, inicia-se uma nova campanha de obras num momento em que o arrabalde da vila começava a ganhar mais força económica. Durante o reinado de D. João III, esta campanha de construção implicou a quase total reconstrução da Igreja ao estilo manuelino renovador.

O Castelo de Montemor-o-Novo é um sítio arqueológico com um profuso conhecimento científico, fruto de várias décadas de investigação sobre o lugar. No interior do perímetro amuralhado, a Igreja de Santa Maria do Bispo é um dos sítios onde esta mais tem incidido. Em primeiro lugar, graças à recolha da informação histórica compilada por Jorge Fonseca e Manuel Branco, e em segundo lugar por uma exaustiva leitura da arqueologia da arquitetura promovida por Gonçalo Lopes, identificando as várias fases de construção do edifício através da sua estratigrafia. Este era o local ideal para colocar em prática as técnicas de reconstrução virtual de património.

Figura 2 -Capa do livro de despesa de obras da Igreja de Santa Maria do Bispo, em documento disponível na Torre do Tombo.

A primeira proposta de reconstrução virtual proposta para a Igreja de Santa Maria do Bispo foi apresentada durante o 1.º Simpósio de Arqueologia Virtual, em Maio de 2015, na comemoração do primeiro aniversário da Morbase. Uma proposta que viria a ser atualizada ainda durante esse mesmo ano, após o surgimento de nova documentação respeitante à fase de obras do edifício até 1534 e dos trabalhos para a produção do documentário web Santa Maria do Bispo 3D – Montemor-o-Novo 1534.

Figura 3 – Reconstrução Virtual do interior da Igreja de Santa Maria do Bispo em 1534.

O retorno a este projeto de reconstrução virtual aconteceu com o intuito de poder demonstrar o processo de trabalho da reforma manuelina da Igreja de Santa Maria do Bispo, no Castelo de Montemor-o-Novo ilustrando, ao mesmo tempo, como eram construídas as igrejas há 400 anos. Uma nova fase de construção que acontece numa época em que a região estava em ebulição arquitetónica graças ao impulso trazido à região de Évora pelo príncipe cardeal D. Afonso, filho do rei D. Manuel I.

Para este propósito as iluminuras medievais foram uma fonte imprescindível, com várias referências a estaleiros de obra, à força humana necessária ao processo de obra de um edifício desta envergadura, assim como as ferramentas e mecanismos necessários ao levantameno de grandes blocos de granito como aqueles que constituíam as paredes e colunas da Igreja de Santa Maria do Bispo. O processo de trabalho de construção de uma igreja era complexo, envolvendo não só os construtores, como também os artesãos da pedra e os canteiros que constantemente acertavam os encaixes de cada bloco para que nada falhasse, como se pode observar na iluminura apresentada na figura 4.

Figura 5 – Cardeal D. Afonso em pintura do século XVII.
Figura 4- Folio 19 da Giuard des Moulin’s Grande Bible Historial.

A reconstrução virtual que apresentamos na figura 6, em baixo, é então o resultado da conjugação dos dados documentais e da reconstrução virtual já apresentada anteriormente na Morbase, desconstruída com o intuito de demonstrar como seria um estaleiro de uma obra desta envergadura: com a presença de andaimes, gruas e o trabalho incansável dos canteiros debaixo do olhar atento daqueles que projetavam, coordenavam e financiavam a obra.

Figura 6 – Reconstrução virtual do processo de obra do interior da Igreja de Santa Maria do Bispo entre 1524-34 (Clique na imagem para aumentar).

 

Carlos Carpetudo