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UMA GRUTA COM 50 MIL ANOS DE HISTÓRIA


A Gruta do Escoural é um dos monumentos mais icónicos do concelho de Montemor-o-Novo, sendo amplamente reconhecida pela presença de arte rupestre do Paleolítico (pinturas e gravuras). Este aspeto da sua ocupação inspirou mais de cinco décadas de investigação que, por sua vez, desvendaram 50 milénios de história. Hoje a investigação continua, para além da recente escavação arqueológica no povoado situado por cima da Gruta, com a aplicação de novas tecnologias para potenciar a sua conservação e interpretação. Nomeadamente, têm sido aplicadas técnicas de virtualização de património como o scan fotogramétrico 3D e softwares de realce de pigmentos para melhor traduzir o conhecimento ao público em geral e descobrir quaisquer outros segredos que a gruta ainda possa manter.

A entrada actual para a Gruta do Escoural, descoberta acidentalmente em 1963.

Este é um local que assistiu à passagem do tempo e a grandes etapas da evolução humana. Há cerca de 50 mil anos as primeiras comunidades chegaram ao Escoural. Eram caçadores-recolectores nómadas em busca de melhores territórios de caça e Neandertais. No Escoural encontraram um local que é um misto de planície, onde cavalos e auroques correm livremente, e colinas com florestas densas, onde poderiam também encontrar veados. Escavações junto à entrada natural da gruta deram-nos informação que nos leva a acreditar que a gruta seria utilizada como abrigo, um local de apoio à atividade principal destas comunidades – a caça. Aqui se desmanchavam peças de caça e se aproveitava o máximo de recursos que o animal poderia providenciar.

 

 

No Paleolítico Superior (35000 – 8000 a.C.) chegou ao Escoural o Homo Sapiens, o Homem anatomicamente moderno. Milhares de anos tinham decorrido, mas este local continuava a atrair comunidades de caçadores-recolectores, que dependiam da Natureza sem qualquer controlo sobre ela, apenas colhendo os seus frutos. Contudo, estas comunidades usaram a gruta de forma muito diferente. Foram estes homens e mulheres que se aventuraram, exploraram o interior da gruta e transformaram as galerias mais recônditas em Santuário de arte rupestre. A maioria dos desenhos e gravuras representam cavalos e auroques, mas também veados e motivos geométricos. Mais recentemente, foram encontradas também marcas de dedos e/ou digitações (ver as duas imagens em baixo). Crê-se que estas representações tenham sido parte integrante de uma religião mágico-ritualista.

 

Arraste a barra para ver a fotografia original e o realce dos pigmentos onde se podem observar as marcas de dedos.

Entre 5000 e 3000 a.C., já em pleno período Neolítico, este local foi de novo ocupado. Foi durante esta nova idade da pedra que ocorreram grandes e determinantes mudanças para a evolução das civilizações humanas: o Homem passou de caçador-recolector a agricultor-pastor, de nómada a sedentário, de adorar a Natureza como algo imutável a controlar e alterar a paisagem. É neste período que surge o Megalitismo e é muito interessante verificar que, apesar de se construírem estes monumentos de grandes pedras para enterrar e honrar os mortos, estas comunidades decidiram transformar a gruta num local de enterramento. É claro que, para além de todas as características do local e da presença da gruta, estas comunidades encontraram aqui algo muito especial – os sinais de uma ocupação antiga “impressos” nas paredes dançando à luz das suas tochas. Os restos humanos encontrados na gruta foram enterrados com objectos de uso diário como machados de pedra polida, enxós, lâminas, ornamentos e recipientes cerâmicos, o que nos leva a crer que estas comunidades acreditavam numa vida após a morte, crença esta que, ainda hoje, é um pilar para a maioria das religiões do mundo. Depois desta ocupação a entrada natural da gruta foi bloqueada, não se sabendo se foi um bloqueio intencional ou um processo natural. E assim se manteve até à sua redescoberta no século passado.

Foi durante o Calcolítico, ou Idade do Cobre, que novas comunidades rumaram ao Escoural e se estabeleceram num povoado fortificado no topo da colina onde a gruta se encontrava encerrada e insuspeita. São comunidades que apresentam uma economia complexa e variada, que adiciona a extração de minério à agricultura e pastorícia. Um povoado do género situado no topo de uma colina composta de mármore branco seria um marco extraordinário na paisagem. Associado a este povoado, a cerca de 900 metros, existe ainda um monumento de enterramento coletivo consistindo numa câmara circular e um corredor retangular construído em pedra – o Tholos do Escoural.

Já no século XX, existiam na zona algumas pedreiras de mármore e foi após uma explosão da pedreira que se abriu uma fenda na galeria principal e a gruta foi redescoberta. A Investigação arqueológica começou quase de imediato, e iniciou-se uma nova ocupação do lugar: arqueólogos, espeleólogos, historiadores de arte, investigadores, conservadores-restauradores e, por último, turistas.

Para visitar a Gruta do Escoural e testemunhar 50 mil anos de história deve marcar previamente a sua visita através do email grutadoescoural@cultura-alentejo.pt ou telefone 266 857 000. O Centro Interpretativo e Gruta do Escoural encontram-se em funcionamento de Terça a Sábado, tendo duas visitas por dia uma às 10h30 e outra às 14h30, com um número máximo de 10 pessoas por visita.

Carlos Carpetudo