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Montemor-o-Novo tem tradição oleira


Apesar de, atualmente, a tradição oleira de Montemor-o-Novo ter apenas continuação nas atividades do Telheiro da Encosta do Castelo e Oficinas da Cerâmica e da Terra, existia aqui, durante a Idade Média e até ao século XVIII, um dos mais importantes locais de produção cerâmica do país.

A cerâmica de Montemor-o-Novo tinha características que a tornavam única e que a demarcavam dos restantes centros oleiros. O cheiro e o aspeto grosseiro que era dado pelas muitas pedrinhas que o barro possuía, bem como a frescura da água conservada nos seus recipientes fizeram da cerâmica montemorense uma das mais conhecidas de Portugal.

Experimente o visualizador interativo 3D deste cântaro produzido, em cerâmica montemorense, recolhido nas escavações arqueológicas do Castelo.

Na obra “Descrição do Reino de Portugal” de Duarte Nunes de Leão descreve-se assim a cerâmica montemorense “Outros sam após estes os de Montemoor o novo que em cheiro lhes nam dam lugar, porque sam pucaros que nunqua sam velhos como os de outras partes: & a razão he que sam feitos de barro mui cheiroso & amassados com muitas pedrinhas que parece que sam tantas as pedras como o barro: dos quaes quando querem usar, os roçam primeiro com huma pedra, & assim descobrem outras mais pedras, & fica novo barro: & assi cada vez os que querem fazer novos, que tenham o cheiro que tinham quando novos, os tornam a roçar & começam apparecer outras pedrinhas”.

Um dos púcaros tradicionais de cerâmica montemorense, encontrado nas escavações do Castelo de Montemor-o-Novo.

Os “Púcaros” de Montemor eram tão reconhecidos que a casa real Portuguesa os tinha em grande quantidade e faziam inclusivamente parte do rol de bens dados em dote às infantas portuguesas.

Embora a cerâmica de Montemor fosse conhecida sobretudo pelos “púcaros” ou infusas de transporte e armazenamento de água, os oleiros de Montemor faziam muitas outras peças tal como o prova a taxa, com os preços praticados pelos oleiros, datada de 26 de Maio de 1646 e onde são descritas as formas mais utilizadas como púcaros, tigelas, panelas, pucarinha, cantarinho, quarta, tigela de fogo, infusas, asados, fogareiros, alguidares, potes, e cântaros de diversos tamanhos.

De facto, nas escavações arqueológicas realizadas até ao momento no castelo de Montemor-o-Novo foram identificadas inúmeras peças de cerâmica de Montemor, com destaque para as bilhas ou infusas, mas onde aparecem também panelas, jarrinhas, potes entre muitas outras peças inclusivamente ornamentais.

Cerca de 90% dos materiais recolhidos das escavações arqueológicos do Castelo de Montemor-o-Novo é cerâmica.
Uma lucerna romana oriunda de uma necrópole tardo-romana (séc. IV d. C.) na zona da atual Barragem dos Minutos, de produção local da região com o barro típico da cerâmica que só se tornaria conhecida quase um milénio depois.

Desconhece-se o início da tradição oleira de Montemor-o-Novo. De época romana foi encontrada uma lucerna, proveniente de uma escavação arqueológica na área da barragem dos Minutos, cujas características indicam que foi produzida na região pela grande quantidade de pedrinhas que se podem observar na pasta. No século XIV é conhecida a presença de um oleiro que vivia no interior da vila intramuros. No século XVI, Montemor-o-Novo conheceu a sua época de maior apogeu também na olaria de que não deve ser estranho o facto da corte, nesta altura, passar longos períodos em Montemor.

A industria oleira fixava-se normalmente nas partes menos povoadas das localidades, quer devido à sujidade que provocavam sobretudo ao nível das águas, quer também ao espaço necessário para armazenamento e trabalho do barro, cozedura e armazenamento de peças. As escavações arqueológicas no castelo ainda não identificaram quaisquer vestígios de olaria no interior da cerca. Contudo, e como vimos anteriormente é certo que elas existiam tal como o atestam os diversos documentos históricos e os muitos materiais arqueológicos encontrados.

Durante o século XVI e posteriores, os oleiros começaram a sair do interior da vila e a estabelecer-se numa rua das ruas do Arrabalde que à época era das mais afastadas do centro. A presença dessa comunidade era tão forte que a rua ficou conhecida como a Rua dos Oleiros, que corresponde atualmente à Rua de Santo António.

Existiriam certamente diversos barreiros (locais de extração do barro) sendo um deles o barreiro da encosta do Castelo. Em 1657 a câmara proibiu a extração de barro deste local certamente porque a atividade podia colocar em risco a estabilidade de certas zonas da vila intramuros. O Rossio era também outro local de extração de barro.

O mercado de loiça, atrás da Igreja do Calvário, em meados do século XX (Fonte: Arquivo Municipal da Câmara de Lisboa).

Nos últimos séculos a tradição oleira de Montemor entrou em decadência. Nos inícios do século XX ainda se fazia uma feira de cerâmica nas traseiras da Igreja do Calvário o que indicia a presença de oleiros locais, contudo nos finais do século XX já não havia qualquer oleiro a laborar.

Atualmente essa tradição tem sido, em parte, recuperada no telheiro da encosta do castelo com a produção de tijolo burro e de olaria de características construtivas e ornamentais. Por outro lado, as atividades da Associação Oficinas do Convento têm permitido apoiar diversos artistas nacionais e estrangeiros que têm desenvolvido residências artísticas em Montemor-o-Novo.

No passado mês de Abril, a Câmara Municipal de Montemor-o-Novo foi um dos membros fundadores da Associação Portuguesa de Cidades Cerâmicas. Esta associação que engloba também os municípios de Alcobaça, Aveiro, Barcelos, Batalha, Caldas da Rainha, Ílhavo, Mafra, Redondo, Reguengos de Monsaraz, Tondela, Viana do Alentejo, Viana do Castelo e Vila Nova de Poiares tem como objetivo preservar, promover e divulgar a tradição cerâmica portuguesa.

Carlos Carpetudo