';
side-area-logo
A vida rural quinhentista retratada num fresco


A vista exterior da ermida de São Pedro da Ribeira com a sua galilé em destaque (fotografia de R. Pimenta).

Embora possivelmente de fundação anterior, a Ermida de São Pedro que hoje conhecemos é obra de 1511, como o atesta uma lápide fundacional que ainda hoje podemos observar no local. Trata-se de uma típica ermida rural, dedicada a São Pedro e constituía para a população de Montemor-o-Novo e arredores um importante local de culto sobretudo aquando das tradicionais festas de São Pedro que tinham lugar a 29 de Junho de cada ano. No seu interior apresenta pinturas a fresco de época quinhentista e seiscentista. Foram, contudo, as primeiras pinturas de época quinhentista que a tornaram reconhecida. Nos finais do século XX, durante uma obra de reabilitação da ermida de São Pedro da Ribeira foi necessário retirar um retábulo de madeira que se encontrava no altar mor (que hoje se encontra no coro alto da Igreja do Calvário). A retirada desse retábulo revelou uma fascinante composição de pintura a fresco datada da primeira metade de quinhentos.

 

Experimente o visualizador interativo 3D do painel central da Ermida de São Pedro da Ribeira.

 

A representação do elefante no canto inferior direito do painel central da Ermida de São Pedro da Ribeira (fotografia de R. Pimenta).

O fresco, que cobre toda a parede fundeira do altar mor, representa São Pedro trajando ricas vestes, ostentando os símbolos papais e sentado no respetivo trono. O mais interessante da composição encontra-se à volta da figura de São Pedro. A paisagem que o envolve é claramente uma representação do termo da vila de Montemor-o-Novo na época. Para além de uma representação do Paço dos Alcaides, podem distinguir-se diversas atividades rurais como o pastor com o seu rebanho, um ceifeiro, dois pescadores, duas aguadeiras, um homem com um tarro de cortiça e uma mulher a fiar. O aspeto mais interessante de todo o conjunto situa-se no canto inferior direito e é a representação de um elefante com o seu tratador indiano. Trata-se seguramente de uma das primeiras figurações renascentistas deste animal em toda a Europa.

Uma das pinturas seiscentistas na abóbada da nave, com a representação da cena bíblica com as tentações de Cristo. A representação do demónio surge com a curiosidade de possuir uma muleta (fotografia de R. Pimenta).

Na primeira metade do século XVI existiram duas embaixadas portuguesas em que figuravam elefantes como ofertas aos seus destinatários. Desconhece-se, contudo, se o elefante da ermida de São Pedro da Ribera se trata de Hanno, o elefante oferecido por D. Manuel I ao papa Leão X, ou de Suleimão, oferecido por D. João III a seu neto D. Carlos de Espanha. O pintor que executou a obra deve, contudo, ter observado o animal e não quis deixar de o representar na sua obra de São Pedro da Ribeira, deixando-nos assim este extraordinário legado.

Para além desta pintura quinhentista, a nave da ermida possui também três painéis igualmente pintados a fresco com cenas bíblicas em que se destaca o painel com as tentações de Cristo e onde surgem 3 figurações do demónio, sendo que a principal aparece representada com uma muleta. Estes painéis são atribuídos ao pintor eborense José de Escobar, autor de diversas obras de pintura a fresco no concelho de Montemor-o-Novo, como o Coro Baixo do Convento da Saudação ou a Sala do Despacho da Santa Casa da Misericórdia.

 

Carlos Carpetudo