Exposição online

ESTA ESPADA É DO SENHOR DOM JOÃO

A CRIPTA DOS MASCARENHAS NO CONVENTO DA SAUDAÇÃO

A passagem por Montemor-o-Novo do bispo do Algarve, que se dirigia a Lisboa para se tornar Inquisidor Geral, foi alvo de enorme comoção na vila no ano de 1616. Sobretudo para o alcaide-mor local, D. Fernão Martins de Mascarenhas que, em conjunto com a sua mulher, D. Catarina, fez questão de receber o clérigo no castelo da vila. A emoção terá sido tanta que, às oito horas da noite, a esposa do alcaide recolheu aos seus aposentos indisposta para, meia hora depois, acabar por falecer.

Foi em sua memória que D. Fernão Martins de Mascarenhas mandou construir, dois dias depois, a cripta sob o coro baixo da Igreja do Convento da Saudação destinada à sua sepultura e dos seus descendentes.

A INTERVENÇÃO ARQUEOLÓGICA EM 2008

Em Agosto de 2008, a Cripta dos Mascarenhas foi alvo de uma intervenção arqueológica de salvaguarda por parte do Município de Montemor-o-Novo, face aos actos de vandalismo de que o jazigo era alvo e à possibilidade da concretização de um projecto de recuperação do Convento da Saudação.

Junto ao túmulo do próprio D. Fernão Martins de Mascarenhas foi possível identificar uma legenda na parede onde ainda hoje se lê “ESTA [desenho de uma espada] É. DO. SENHOR. DOM. IOÃO. SEU. PAI /. FALECIDO. EM. ÁFRICA.” Precisamente colocada junto do corpo do alcaide-mor permanecia uma espada que havia pertencido a D. João de Mascarenhas, pai de D. Fernão Martins, falecido na batalha de Alcácer-Quibir, onde desapareceu o rei D. Sebastião, cujo corpo nunca voltou de África.

D. Fernão Martins de Mascarenhas terá então feito o pedido de, em homenagem ao seu pai, ser sepultado com uma espada que lhe havia pertencido. Pedido esse que foi concretizado e através do qual hoje temos acesso a essa mesma espada.


“ESTA [desenho de uma espada] É. DO. SENHOR. DOM. IOÃO. SEU. PAI /. FALECIDO. EM. ÁFRICA.”

A BATALHA DE ALCÁCER QUIBIR

Também conhecida em Marrocos como a Batalha dos Três Reis, foi umas das batalhas mais desastrosas da história de Portugal e que teve lugar perto da cidade de Ksar-El-Kebir (Alcácer-Quibir) a 4 de Agosto de 1578. Este confronto histórico opôs o exército português, liderado pelo Rei D. Sebastião em aliança com o exército do Sultão Abd Al-Malik, contra o exército marroquino liderado pelo Sultão Abu Abdallah Mohammed Saadi II.

A intenção do monarca português, D. Sebastião, passava por subjugar o Islão marroquino à doutrina cristã. Contudo, do outro lado do campo de batalha o exército marroquino, apesar de pior equipado, era composto por mais do dobro dos homens do exército português, opondo vinte mil homens a cerca de cinquenta mil. A pressão marroquina foi tanta que o exército cristão bateu em retirada em direcção a Larache, na costa africana. A morte por afogamento foi o destino de muitos, entre os quais se incluía o rei português, enquanto outros se renderam às mãos do exército marroquino. A morte de D. Sebastião, sem herdeiro directo, deixaria o império português ao alcance do controlo espanhol. Algo que se viria a materializar posteriormente, por mais de 60 anos, durante a Dinastia Filipina.

Entre os 9.000 homens que morreram na batalha de Alcácer-Quibir estavam ainda 231 nobres portugueses onde se incluía D. João de Mascarenhas, alcaide-mor de Montemor-o-Novo, filho de D. Vasco Mascarenhas e pai de D. Fernão Martins de Mascarenhas que na altura era ainda menor. Por isso, quem viria a assumir a alcaidaria-mor até este alcançar a idade para ocupar o cargo seria a sua mãe e viúva de D. João, D. Aldonça de Mendonça, cujo túmulo também se encontrava na cripta.


Rei D.Sebastião

A RAPIEIRA DE DOM JOÃO

Apesar de ser pertença antiga de D. João de Mascarenhas, que a sua viúva D. Aldonça de Mendonça e filho D. Fernão Martins de Mascarenhas preservaram, esta espada nunca terá sido empunhada na batalha de Alcácer-Quibir. Seria ao invés um artefacto que teria permanecido por Montemor-o-Novo, enquanto D. João partia com a nobreza portuguesa para África e com a qual, posteriormente e em homenagem ao pai, D. Fernão Martins de Mascarenhas se fez sepultar.

A espada de D. João de Mascarenhas pode ser caracterizada como uma rapieira, uma tipologia de espada que evoluiu da ropera espanhola no final do século XVI. A rapieira não era uma espada ligada ao uso militar mas sim ao uso civil. A ela estava inerente a ostentação social da nobreza dos séculos XVII e XVIII e o seu uso em combate estava sobretudo ligado aos duelos. Nestes, o uso de armadura ou escudo era inexistente, levando ao desenvolvimento de técnicas de defesa mais baseadas no movimento do corpo e no bloqueio com a própria rapieira.

A rapieira era ainda habitualmente uma espada leve e de equilíbrio fácil, com uma guarda em forma de copo. Algo que já não acontece no caso da espada de D. João, já que o guarda mão possui apenas corpo de secção circular, e 3 contraguardas também de secção circular.

CSAUDCRIP[08]0001
Material: Metal (ferro, prata, ouro e material orgânico)
Dimensões: Comprimento total: 1,27 mt; Comprimento do punho: 27 cm;
Descrição: Espada com lâmina de secção lenticular, no punho apresenta um entrelaçado de fios de prata muito finos, no ricasso tem um banho a ouro onde aparenta ter um brasão com má leitura, mas onde ainda é possível observar uma forma geométrica [escudo]com uma flor no interior. Pomo de forma oval com botão circular, guarda mão com corpo de secção circular, e 3 contraguardas de secção circular.



Bibliografia



FONSECA, Jorge, “A cripta dos Mascarenhas no mosteiro de N.ª S.ª da Saudação de Montemor-o-Novo”, in Almansor | Revista de Cultura, n.º 8, 2.ª série, Câmara Municipal de Montemor-o-Novo, Montemor-o-Novo, 2009;

GALAMBA, Ulrico, “A Colecção de Armas do Museu de Évora”, in Cenáculo n.º3 – boletim on line do Museu de Évora, Museu de Évora, Évora, 2008 [disponível online em: http://museudevora.imc-ip.pt];

MATRIZNET – catálogo colectivo on-line dos Museus do Ministério da Cultura [http://www.matriznet.dgpc.pt/ - consultado a 17-06-2014].

MYARMOURY.COM – A Resource for Historic Arms and Armour Collectors [http://www.myarmoury.com – consultado a 17-06-2014].

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