Exposição online

Cerâmica Montemorense

“(...) os [púcaros] de Montemoor o novo (...) sam pucaros que nunqua sam velhos como os de outras partes (…) [por]que sam feitos de barro mui cheiroso [e] amassados com muitas pedrinhas (...)”

Duarte Nunes de Leão - Descripção do Reino de Portugal, 1610

Cerâmica Montemorense

- “púcaros que nunca são velhos”

Com referências documentais e dados arqueológicos que traçam a actividade oleira em Montemor-o-Novo desde, pelo menos, o século XIV, terá sido no século XVI que este centro oleiro alentejano atingiu a sua época áurea colocando-o ao nível de outros grandes centros de produção cerâmica tais como Estremoz, Évora ou Lisboa. Viria a ser suplantado no século XVIII pelo centro oleiro das Caldas da Rainha e, a partir daí, começou a perder fulgor até desaparecer, por completo, em meados do século XX. Para a técnica montemorense em si, não é ainda possível traçar a data da sua origem. Contudo, as evidências arqueológicas aproximam-na do século XV, tendo esta antiga produção caracteristicamente montemorense cessado actividade no século XVIII.

A Olaria Local

É conhecida a presença de um oleiro, em 1387, habitante da vila intra-muros, podendo, no entanto, especular-se se possuiria a sua oficina no mesmo local da sua habitação ou não. No entanto, por norma, os mestres de olaria estabeleciam a sua actividade industrial junto das periferias dos centros urbanos devido à poluição que produziam durante o processo de cozedura das peças cerâmicas. Dessa forma, sabe-se que, durante o século XVI e posteriores, os oleiros estabeleciam as suas oficinas no arrabalde, mais especificamente na Rua dos Oleiros, actual Rua de Santo António, e na sua contígua - Rua do Pedrão. Sabe-se que o barro era extraído de algumas zonas específicas, particularmente e de entre outras, da encosta da vila intra-muros (extracção essa que a Câmara viria a proibir em 1657, com direito a multa de 1.000 reis), assim como do Rossio. A importância que Montemor-o-Novo adquiriu como centro de produção oleira viria a resultar numa classe oleira com um significativo poder económico dentro da localidade, manifestando-se na posse de propriedades rústicas e urbanas. Este poderio financeiro originaria verdadeiras “dinastias de oleiros” em Montemor de que é exemplo a família Álvares e/ou Alves, com referências documentais que a ligam, através de cerca de duas centenas e meia de anos, ao ramo da olaria.

A Especificidade Local

Aclamada pela sua frescura, a cerâmica de Montemor possuía várias características que lhe eram inerentes e que atribuíam a sua especificidade, face aos demais centros oleiros da região alentejana, tais como: o cheiro, o aspecto grosseiro e a coloração. Exceptuando a última, as duas primeiras características enunciadas estavam intrinsecamente relacionadas com os elementos não plásticos na pasta cerâmica: os fragmentos de quartzo e/ou feldspato.

A frescura e o cheiro característico que as pedras atribuíam à água faziam com que a época de maior procura destas peças, tendo em conta o clima alentejano, fosse o Verão.

Eram ainda peças, que pela sua capacidade de se renovar, nunca eram consideradas velhas. Quando as pedras da superfície deixavam de se ver, as peças eram raspadas de modo a que a camada exterior voltasse a ter o aspecto grosseiro original, mas característico, e as pedras voltassem a aparecer, como é descrito por Duarte Nunes de Leão, na sua Descripção do Reino de Portugal, em 1610.

No entanto, nem só ligada à água estava a indústria cerâmica tradicional montemorense, sendo conhecida a produção de contas de colar em cerâmica avermelhada e com pedras, assim como outras peças mais peculiares como é exemplo a máscara (MNCAST[3/05]0195) que a arqueologia trouxe a descoberto.

O Comércio

A indústria oleira local seria suficiente tanto para abastecer as habitações e locais de trabalho, como são exemplo as adegas ou os lagares, assim como para exportar para fora da antiga vila. Aliás, durante o reinado de D. Manuel I, Montemor-o-Novo ter-se-á assumido como importante centro de exportação de cerâmica podendo este facto ser comprovado pela maneira como a própria família do rei ostentava os púcaros de Montemor nos seus pertences. Em 1507, em Beja, são inventariados os bens da falecida infanta D. Beatriz, mãe de D. Manuel I, onde constavam, de entre o seu abundante património pessoal, trinta e nove púcaros de Montemor. A filha de D. Manuel I, a imperatriz D. Isabel, mulher de Carlos V de Habsburgo e mãe de Filipe II de Espanha, possuía 17 púcaros de Montemor, assim como um jarro grande também de Montemor no seu inventário de bens de 1525.

No inventário de bens de 1573 da filha de D. Isabel, D. Joana de Áustria, também é referida a presença de peças de cerâmica montemorense. Esta relação da cerâmica de Montemor com a casa de D. Manuel I, com alguma certeza, terá aberto as portas comerciais de algumas capitais europeias como era o caso de Madrid. Em território nacional, Lisboa era um importante ponto de venda. O Algarve poderia igualmente ser uma região importante de exportação, algo evidenciado com a presença de cerâmica de Montemor dentro de um poço-cisterna tardo-medieval escavado em Silves.

As peças em Exposição

Ao longo dos anos, em Montemor-o-Novo, as escavações arqueológicas desenvolvidas na antiga vila intra-muros, assim como fora do recinto amuralhado no Convento de São João de Deus, revelaram alguns exemplares desta antiga técnica oleira montemorense. Particularmente, o acervo aqui em exposição é todo pertencente a campanhas arqueológicas do Castelo de Montemor-o-Novo referentes aos anos de 2005, 2007 e 2009. A campanha mais profícua em cerâmica de produção local foi a de 2009, mais concretamente o espólio resultante de um silo cujos materiais se situavam cronologicamente entre o século XIV e XV. São daí resultantes, das peças em exposição, o jarro, e os dois cântaros pequenos identificados com os n.º de inventário: MNCAST [7/09] 0117; MNCAST [7/09] 0118; e MNCAST [7/09] 0119.

Espólio em Exposição


Púcaro 1

n.º inventário: MNCAST [3/05] 0198
dimensões: diâmetro exterior do bordo – 7 cm; diâmetro interior do bordo – 5,6 cm; diâmetro máximo do bojo – 9,2 cm; diâmetro da base – 3,4 cm; altura da peça - 8,5 cm.
descrição: É um púcaro de pequenas dimensões que não exibe marcas de ter sido usado no lume. A sua função seria servir pequenas quantidades de água. É o exemplo característico da cerâmica montemorense.
Púcaro 2

n.º inventário: MNCAST [3/05] 0199
dimensões: diâmetro exterior do bordo – 7 cm; diâmetro interior do bordo – 6,2 cm; diâmetro máximo do bojo – 9 cm; diâmetro da base – 4,2 cm; altura da peça – 9 cm.
descrição:Púcaro de pequenas dimensões, com colo demarcado, ao contrário do púcaro 1. A raspagem só é visível em algumas partes da peça. A sua função é idêntica à do púcaro 1.
Cântaro Pequeno 1

n.º inventário: MNCAST [7/09] 0118
dimensões:diâmetro exterior do bordo – 10,7 cm; diâmetro interior do bordo – 9,4 cm; diâmetro máximo do bojo: 20 cm.
descrição: Peça com bocal mais estreito que o corpo, com textura rugosa e fragmentos de pedras ao longo de toda a sua superfície. Pasta mais avermelhada que as restantes do acervo em exposição. Possui ainda vestígios da película original em algumas zonas do corpo, embora a maioria da sua superfície tenha sido raspada como era comum com a cerâmica de Montemor.
Cântaro Pequeno 2

n.º inventário: MNCAST [7/09] 0119
dimensões: diâmetro interior do bordo – 9 cm; diâmetro exterior do bordo – 11 cm; diâmetro máximo do bojo – 20 cm; diâmetro da base – 10,3 cm; altura da peça – 26,2 cm.
descrição:Peça com bocal mais estreito que o corpo, com textura rugosa e fragmentos de pedras ao longo de toda a sua superfície. A sua superfície aparenta ter sido raspada quase até à exaustão. No seu interior encontram-se vários vestígios de coloração esbranquiçada que resulta, possivelmente, do uso com águas calcárias.
Jarro

n.º inventário: MNCAST [7/09] 0117
dimensões:diâmetro interior do bordo – 10 cm; diâmetro exterior do bordo: 11 cm; diâmetro máximo do colo - 11,4 cm; diâmetro máximo do bojo – 18 cm; diâmetro da base – 11,9 cm; altura da peça - 25,6 cm.
descrição: Jarro de ir à mesa ostentando, no entanto, marcas de fogo no fundo. As pedrinhas colocadas a descoberto são de menores dimensões, e a pasta de uma coloração mais acastanhada que a habitual na cerâmica local. É possível que esta peça não seja de produção local e tenha sido raspada para se assemelhar à cerâmica montemorense.
Máscara

n.º inventário: MNCAST [3/05] 0195
dimensões:altura máxima da peça – 10 cm;
descrição:Peça curiosa, possivelmente produzida com molde, de propósitos lúdicos ou de mera recriação artística do oleiro. Dois dos elementos da face, o olho e os dentes, são caracterizados com dois elementos discrepantes da pasta que constitui o resto da peça. Sendo o primeiro figurado por um vidrado azul, e os segundos por pequenos fragmentos de quartzo. Sob a película original da máscara são visíveis as pedrinhas características da cerâmica local.


Bibliografia


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