Exposição online

A RECONSTRUÇÃO VIRTUAL DA SALA DO CAPÍTULO

do mosteiro de Sto. António de Lisboa, em Montemor-o-Novo


Textos: Carlos Carpetudo e Gonçalo Lopes
Design: Helena Barreiras

A GÉNESE DO MOSTEIRO

A construção deste mosteiro, edificado pela ordem de São Domingos, teve início na segunda metade do século XVI sobre a antiga ermida de Santo António de Lisboa que aqui existiria desde o século XIII. Manuel Fragoso e Brites de Negreiros, pessoas abastadas, habitantes de Montemor-o-Novo, não tendo filhos, assumiram a iniciativa de aqui erigir o mosteiro de Santo António de Lisboa. Esta decisão terá sido tomada sob a influência de Frei Luís de Granada, uma importante figura da Ordem de S. Domingos, de origem espanhola. A construção do mosteiro inicia-se a partir de 1561, com o lançamento da primeira pedra da igreja na presença do próprio Frei Luís de Granada. Em 1565, esta já estaria terminada e é nesse mesmo ano que começam as obras do mosteiro propriamente dito. O início desta segunda fase de obras foi marcado pela cerimónia de lançamento da primeira pedra onde estiveram presentes importantes personalidades da vila de Montemor-o-Novo, como foi o caso do alcaide-mor D. Fernão Martins de Mascarenhas, o seu irmão D. Vasco e o respectivo filho D. João (futuro alcaide-mor que viria a falecer na batalha de Alcácer Quibir). A obra arrastou-se até 1619, quando o mosteiro foi elevado a priorado e é nesta data que a vida monástica começa, tomando partido do edificado e ali se instala em definitivo a comunidade de frades dominicanos. O Convento teve alguma importância na região e seria local de alojamento de algumas figuras importantes que passaram pela antiga vila. É disso exemplo a permanência em 1669 neste mosteiro de Cosme III de Médici, Grão-Duque da Toscana, e da sua comitiva aquando da sua passagem por Montemor-o-Novo.

BRÁS DE FIGUEIREDO E LEMOS E A REORNAMENTAÇÃO DA SALA DO CAPÍTULO

Esta personagem da história do mosteiro de Sto. António de Lisboa, em Montemor-o-Novo, foi fulcral no enriquecimento de todo o edifício conventual durante o século XVII. Brás de Figueiredo e Lemos era filho de Bento de Figueiredo de Lemos e Inês de Mira. Embora não seja muito claro, seria aparentado pelo lado paterno ao bispo do Funchal D. Luís de Figueiredo de Lemos. Ao que parece, teve uma carreira eclesiástica bastante bem sucedida tendo recebido ordens de missa em 1633 e vários cargos importantes ao longo da vida. Como se pode ver pela epígrafe funerária, intitulava-se “juiz conservador” e “protonotário apostólico”. Foi ainda pároco da igreja de Safira, no concelho de Montemor-o-Novo, anteriormente freguesia, hoje reduzida a um pequeno aglomerado urbano completamente arruinado. Brás de Figueiredo e Lemos terá sido uma personalidade bastante reputada na comunidade dominicana local e a isso muito se deve o facto de ter gasto uma avultada soma na reornamentação da Sala do Capítulo deste mosteiro, construída inicialmente no século XVI. Foi graças a ele que este espaço conheceria paramentos novos, alfaias litúrgicas em prata e uma importante campanha de revestimento das paredes com azulejos polícromos (na sua maioria do padrão conhecido por “tapete”). Seria também ali construída a cripta onde o próprio Brás de Figueiredo e Lemos teve jazigo, assim como os seus irmãos e progenitores.

A RUÍNA DO MOSTEIRO

A partir da extinção das ordens religiosas no século XIX, o edifício entra em declínio devido ao abandono. Seria posteriormente vendido em hasta pública a um privado. A estrutura da igreja acabaria por entrar em ruína, com a parede fundeira da capela-mor a ruir completamente. Do primeiro piso do claustro apenas restavam as paredes e a Sala do Capítulo, que perdeu muitos dos elementos que a enriqueciam.



Fotografia: J. Chapa

A RECONSTRUÇÃO VIRTUAL DA SALA DO CAPÍTULO

Devido à ruína do mosteiro, a Sala do Capítulo perdeu grande parte do que a tornava num exemplo singular enquanto espaço conventual do concelho no século XVII. No entanto, graças às novas tecnologias é possível reconstruir virtualmente o espaço como ele seria tendo por base as referências textuais ao local, assim como os elementos arquitectónicos e as evidências arqueológicas que ainda restam. Para que possa visitar o local e comparar o existente com aquilo que existia no século XVII, deixamos-lhe uma aproximação entre os vários elementos da reconstrução virtual daquela que era a divisão do mosteiro onde os monges se reuniam em assembleia.



A AZULEJARIA PORTUGUESA

No século XVII, as quatro paredes desta sala encontravam-se cobertas por painéis de azulejo, típicos da época. Hoje em dia, pela sala, encontram-se ainda vestígios de cada um dos padrões utilizados na reornamentação que permitem reconstituir aquela que seria a sua disposição pelas paredes.

O ALTAR DE ALVENARIA

Na parede Sul, através do que resta dos painéis de azulejo é possível verificar que ali existiria um altar, precisamente por baixo da lápide parietal que consagra o patrocínio de Brás de Figueiredo nesta sala, datada de 12 de Janeiro de 1675. O altar coberto a azulejo teria, talvez um frontal figurativo no mesmo material, mas optou-se por representar com um frontal de tecido e, sobre ele, a banqueta constituída por 6 castiçais e uma cruz de prata, conforme era uso.

A EPÍGRAFE DE ENTRADA NA CRIPTA

Antes das obras de recuperação do conjunto monástico, esta laje terá sido retirada por populares que entraram no edifício arruinado. Os fragmentos da epígrafe encontravam-se espalhados pelo claustro sem que se conhecesse a sua origem. Assim, após a identificação e a colagem dos vários elementos, foi possível decifrar o texto que ela continha: HAEC REQVIES MEA IN SEACULU(M) SAECULI HIC HABITABO QVONAM (...) ELEGI EAM ANNO DOMINI 1674. Esta inscrição poderá ser interpretada tendo o seguinte significado: “Este é o meu descanso eterno onde escolhi habitar para sempre. Ano do senhor 1674”.

O NICHO

Presente na parede Norte, no lado direito do Portal encontra-se um nicho que serviria para arrumar objectos litúrgicos na Sala do Capítulo. Na reconstrução virtual foi tido em conta o exemplo semelhante situado no Refeitório deste mesmo mosteiro, cujo interior é coberto por azulejos.

A PIA DE ÁGUA BENTA

Também presente na parede Norte, no lado esquerdo do portal, estaria uma pia de água benta cujo arranque em pedra ainda hoje é possível verificar.

O BRASÃO DE BRÁS DE FIGUEIREDO E LEMOS

Conservado actualmente fora do local original, o brasão estava colocado na parte superior da parede Oeste por cima da lápide parietal que consagra o patrocínio de Brás de Figueiredo, nesta sala, a 12 de Janeiro de 1675. Ali ainda hoje se conservam os vestígios da sua remoção junto ao arranque da abóbada. No brazão, cujas dimensões rondam os setenta centímetros, por cinquenta e dois centímetros, encontra-se representado um chapéu de seis borlas por lado, o símbolo de dignitário da Igreja Católica. As armas ao centro representam os Figueiredo e Lemos.

O PROCESSO DE RECONSTRUÇÃO *
*De acordo com a escala de evidência Histórica/Arqueológica proposta por César Figueiredo e Pablo Aparício Resco.

Imaginação
Imaginação baseada no contexto histórico e natural

Conjectura baseada em estruturas similares
Representação através da arquitectura comparada ou de elementos similares

Referência textual básica
Descrição textual simples (apenas indicativa)

Referência textual descritiva
Descrição detalhada de elementos (dimensões, materiais, cores, etc.)

Referência gráfica sumária
Representação simples em desenho, gravura ou pintura

Referência gráfica de pormenor
Representação em desenho ou gravura detalhada e objectiva

Informação arqueológica básica ou plantas simples
Indícios arqueológicos simples ou plantas esquemáticas

Forte evidência arqueológica e documental em fotografias e plantas detalhadas
Dados arqueológicos precisos e outros dados documentais tais como fotografias e plantas pormenorizadas

Existente (ou parcialmente existente) com modificações
Quando a estrutura ou objecto existe no presente de forma parcial ou alterada

Existente conforme o original
Quando a estrutura ou objecto existe no presente conforme foi construída



Bibliografia



AAVV, Cerâmica – normas de inventário (Artes plásticas e Artes decorativas), Instituto dos Museus e da Conservação, Lisboa, 2007.

FIGUEIREDO, César, APARICIO RESCO, Pablo, Escala de Evidência Histórica/Arqueológica (PT) – disponível em https://parpatrimonioytecnologia.wordpress.com/2014/07/21/escala-de-evidencia-historica-scale-of-historical-evidence [consulta a 01-10-2014].

ESPANCA, Túlio, Inventário Artístico de Portugal, Concelho de Évora, 2 vols, Academia Nacional de Belas Artes, Lisboa, 1966.

SAMEIRO, Pedro, MALTA, João, Pedras de Armas de Montemor-o-Novo, in Almansor | Revista de Cultura, n.º 2, 2.ª série, 2003, p. 101.

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